Lá fora e cá dentro a tormenta sombria;
Uma dor inútil, forte e secreta
Pesa sobre mim como vida esbanjada,
      Salvo onde, da pálida tumba do dia,
Algo semelhante à luta se projecta
Na mudança da chuva, ao vento soprada.

A mansão vacila perante o trovão,
Uma luz fugaz perturba o olhar,
E algo sinistro e uma ventania
      Me fazem tremer na frágil compleição;
E, alheia a mim, com tudo a desabar,
Uma voz — não a minha — se ergue em alegria.

Por que não pode um jovem ser alegre, amar?
Porque sou o cadáver em que o medo, o sofrer
E só sombrios enigmas, universais,
      Se vieram, como um corpo, entrelaçar
À minha natureza onde há um fogo,
Fonte ardente de falsas penas e ais?

Sopra forte, ó vento! Empalidece, ó dia!
Não podeis em medo e horror condizer
Com o que trago em mim e é meu ser,
      Este vão pensar que se extravia
À profunda agonia sujeitado;
O que sente o trinco do portal da razão
Cair, com um som de conclusão,
Como algo que se fecha e para sempre passado.


1905

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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