Adeus, Maria! Há um só momento
Na vida, e morre sem razão.
Ser feliz é um esquecimento
E poder sê-lo uma ilusão.
Adeus, Maria! O coração
Não pode com o pensamento.

Amámo-nos... Seria amor?
Sabe-se lá o que se sente!...
É uma cousa meio dor
Que parece alegria, e a gente
Sente-se amando vagamente.
No fundo há só um amargor.

Amar é querer ser feliz
Com uma outra alma onde o achar.
Há tanta cousa que se diz
E não se pode realizar!
Não sei se te fingi amar,
Mas, se fingi, eu não o quis.

Nem sei se foi com alegria
Ou dor que me esqueci de ti,
Ou como é que te esqueceria
Se não fosse que te esqueci.
E é desde que te aborreci
Que te recordo noite e dia.

Isto é subtil e complicado
Nem talvez tenha uma razão.
Creio que todos têm passado
Pela mesma complicação.
Em que é que pensa o coração?...
E é isto amar e ser amado!...

Adeus, Maria! Ah, se eu pudesse
Não te dizer adeus, e amar
Fosse uma cousa que esquecesse
Sem deixar de continuar!
Ter o prazer de recordar
Sem que o que lembra se perdesse!

Mas tudo é como não queremos.
Temos que ser quem somos. Nem
Vale a pena saber que havemos
Razão contra nós-mesmos. Bem
Faz quem despreza, ou quem se abstém!
Adeus!...Sonhamos o que temos.


[c. 22-4-1922]

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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