Ah, se no fosse a nvoa da manh
E a velhinha janela, onde me vou
Debruar, para ouvir a voz das cousas,
           Eu no era o que sou.

Se no fosse esta fonte, que chorava,
E como ns cantava e que secou…
E este sol, que eu comungo, de joelhos,
           Eu no era o que sou.

Ah, se no fosse este luar, que chama
Os espectros vida, e se infiltrou,
Como fluido mgico, em meu ser,
           Eu no era o que sou.

E se a estrela da tarde no brilhasse;
E se no fosse o vento, que embalou
Meu corao e as nuvens, nos seus braos,
           Eu no era o que sou.

Ah, se no fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sombras povoou,
E de vozes sombrias meus ouvidos,
           Eu no era o que sou.

Sem essa terra funda e fundo rio,
Que ergue as asas e sobe, em claro voo;
Sem estes ermos montes e arvoredos;
           Eu no era o que sou.

 

 

Teixeira de Pascoaes
CANçãO DUMA SOMBRA
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