Antes da realidade, ou ilusão,
De um Cristo justo, bom, martirizado,
Já o símbolo fatal se achava nado
Num alto pensamento de Platão.

«O homem justo e bom, quando apareça
Há-de ser pelo □ vulgar
Crivado de martírio e de pesar
E torturado até que no fim pereça.

E este que o coração sente ou pressente
Esta verdade interiormente clara
Sabe-a bem toda a alma livre e rara
Que o Bem defende, persistentemente.

Porque — saiba-o quem luta e quem se isola
Para que a humanidade sofra menos
Os prémios são os venenos
Do riso, e do sorriso que desola.

Cante, oh poetas, a nossa alma triste
O mal, sem que se esforce a memoriá-lo,
E o povo □
De erguermos à violência e à licença
Um altar na nossa alma prostituída
Temos, pronta, □ e rendida
A alma popular’ sôfrega e intensa.

Mas se embalados num ideal supremo
Cantamos a pureza, e a castidade,
Se a própria pena □ dominada
Da volúpia, da crápula e do vício,

Se ao Bem, com duro e entranhado culto
Cantamos a □ e a virtude
Cada palavra para nós é rude
E cada gesto um símbolo de insulto.

Porque, por que ganhemos a vitória
Na popularidade que dá palmas
Para que tenham □ almas
Segura, certa e duradoura glória,

É preciso que à □ e à prostituta
A nossa alma se proste com devoção
Que nunca, nobre e livre, a nossa mão
Se erga contra E corrupta,

É preciso que ao povo baixo e alto
Os desejos e □ adulemos,
E sem por caridade ser, lavemos
Os pés da opinião, sem sobressalto.

Compra-se assim a Glória, que se perde
Se a nossa boca da verdade amante

Então, enquanto alçamos livre e branco
O estandarte do espírito do poeta,
A humanidade lança-nos completa
O insulto do seu riso alegre e franco.

E nós, que amamos quem mais que nos odeia
Porque, por sonhar, queremos nos desfazer,
Sem a nossa alma sempre escrava do prazer
D’algo mais baixo do que a nossa ideia,

Nós, sabendo que terá, entre o corrupto,
Nosso trabalho desagradecido
Num coração □ e sumido
Na sociedade inteira obscuro fruto;

Sabendo que o dever nos manda e impele
Que em face do doesto e ante a injúria

Aos insultos e □ sorrimos
Chorando dentro em nós o isolamento
E chorando ainda mais o pensamento
Desenganadamente prosseguimos.

 

7 - 1 - 1910

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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