Ninguém o foi buscar...
Morto, quedou sozinho...
O seu gesto foi no ar...
Não deixou rasto ou resto
Que o fizessem mesquinho...
Nem lhe faltou falar...
Mataram-no ao virar
A esquina do seu gesto...

Cresçam as flores sobre
Sua campa despida...
O céu imenso cobre
Com seu silêncio alto
Toda a campa esquecida...
A chuva simples sobre
A campa fria e podre
E o bronze — o basalto...
Quando os outros venceram
Nada nele acabou...

Quando eles se renderam
Ele não se rendeu...
Até ao fim levou
A fé que outros venderam
Aos restos que perderam
Do festim que se ergueu...

Como Buíça e Costa
Falou pelos vencidos...
Em que prado ou encosta
De que secura aldeã
Jazem hoje esquecidos
Seus ossos? A alma gosta
Da solidão imposta
À sua carne vã...

Ele foi um momento
A alma dum povo todo...
A plebe, □ vento,
A turba, que é a peste
Erguendo-a do lodo,
Vela o oculto intento
Da Raça
Tu, perdendo, venceste...

Dorme esquecido... Um dia
Acordarás em nós...
A tua sombra fria
Será astro nos céus
Da nossa (vindoura) voz...
Teu gesto aponta a via
Que será nossa um dia
E se perde além Deus...
 
A alma mais lembra quando
O corpo mais esquece...

10 - 5 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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