Sou uma voz sonâmbula
Tacteando nas trevas
A sombra do meu eco
É mais real do que eu...
Sou o resto de todos os cansaços
A dor de todas as angústias
Fez de mim sua visita.
Perfumo de silêncio
Todos que para mim
Estendem a chorar
O gesto de me querer...
Passo como um farrapo de nevoeiro
Entre as árvores frias
Da floresta que dorme...
Ando à tona das ondas
Ao pé das praias desertas
E escuto o canto meu
Como se fosse d’outro...
Às vezes tenho saudades
De outras mágoas que tive
Quando era uma outra cousa
E do alto de uma torre
Mais velha do que Deus
Eu via um outro luar
Cantar-me outras tristezas...
Agora erro sonâmbulo e despido
Entre o sonho e a vida…
21 - 12 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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