Meu ser vive na noite e no outramente,
Vestígio e esteira de onde o barco foi...

Nada é, tudo se outra. A consciência
É o vácuo entre o que somos e o que Ele é.
E a Natureza é a sombra que se vê
Encher de luz o vácuo e a luz é ciência.
Enche o vácuo de temor
Enche de movimento a inexistência.

Mas onde a Luz que é Ele e a intermitência?
Onde está o universo onde se lê
Com a voz da Razão verbo de fé...
Onde é que o Nada encontra a consistência?

Paro em mim mesmo, exausto de pensar-me,
No que sou, Tu, Ser que o ser enche e cobre,
E o silêncio é ouvir-te e renovar-me
Oiço e um horror me os olhos da alma vasa.
E a Sua agonia é um manto sobre
O não haver senão a Sua asa.
Dentro d’Ele seu ser de si extravasa.

Foi antes do Não-ser de onde Deus veio,
Na antiga Noite antes de a noite ser,
Que no abismo de Ele teve ver
O Espírito que olha e está no meio.

E à roda, fluido de anterior anseio,
Começo abstracto de poder haver
Em círculos concêntricos de ter
Concebeu-se o universo, a si alheio.

Mas o Fantasma guarda a porta ausente,
E inda haveria mais que eternos céus
Que passar, antes que ter ser fosse ente.
Então se abriu a porta e Ele era os seus.
Amanhece-se em flor no inexistente.
Sem ser morre. A sua morte é Deus.

28 - 3 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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