Apagaram-se as pombas no telhado, 
escorreram no sangue, 
vão suceder-se noites sem flores, 
imagens sem luz, 
caminhos sem água nas arestas do crime. 

Coloco um retrato de Allende na parede 
e recebo a dor deste sorriso 
como um punhal na minha impotência. 

Que batalha vai iniciar-se? De que armas 
nos iremos servir? 

O poema não basta, 
eu sei. 
Mas será música 
no dia do regresso — pombas 
novamente 
no telhado das estrelas. 

Apenas uma imagem — por agora.
1972

In O PÊNDULO AFECTIVO - ANTOLOGIA POÉTICA:1950-1990 , Edições Afrontamento, 1991
Egito Gonçalves
CHILE
« Voltar