Tenho um segredo que nem eu próprio conheço...
Data de almas minhas anteriores à actual...
Outras paisagens sugerem-se através das janelas
E a hora visível recua até ao fundo
Do meu ser e intercala-se
Uma ideia de mim entre mim e a realidade…

Tenho um segredo que o Tempo não inclui,
Nem a Vida, nem a sombra nos vales
Chamada sentir, nem os palmeirais do sonho,
Não— nem o teu gesto lento só enfado
‘Scrito ainda mole nas pregas da tua túnica
(Tudo com sombrias águas ao fundo).
Em torno ao meu sono falso ou profundo eu círculo
E a voz do encantador afastando-me de agir...

Murmúrio das águas...
Humidade das pedras...
Nitidez sem arestas dos rochedos...
O segredo disto tudo é outras eras...
O sentido para que tudo isto se inclina espelha-se no infinito...
E a vida que vivi em tudo isto, e que sofri e amei
Antes do Tempo, parece hoje visto assim ser meu de longe,
É a bailadeira ao canto esperando a vez de dançar
Ainda e com a luz da porta oblíqua sobre os ombros.

13 - 4 - 1916

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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