Uma leve (veludo me envolve), vaga,
      Vazia brisa

Como uma impressão imprecisa se propaga
      Pela minh’alma imprecisa.

Pendem, oscilando, do caule da Hora — a rosa
      Rara raiou —
As flores que outrora perfumaram a luminosa
      Vida que (já) passou.

E tudo porque uma brisa, como quem brinca, brinda
      Ao meu hesitar
O insulto inútil da sua veludínea e linda
      Voz de variar;

Porque sob o azul do sul um bafo, ou (um) afago
      Que sugere, ou contém,
A ideia de vida feliz ou de morte tranquila, vago
      Afago vem.

E eu dispo de mim as intenções e as memórias
      Na abstracta fragrância,
E a Hora é apenas o terem-me contado ‘stórias
      Na minha infância.

13 - 8 - 1917
(num carro subindo a Av. Almirante Reis)

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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