O enigma na sua boca —
Ninguém o leu ainda.
E o que a faz triste e louca
É o mesmo que a faz linda...
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Louca, loura, leal
Ao seu sonho secreto,
Com seu ar outonal
E o seu vestido preto...

Príncipe morto, ‘sfinge
Que o pensamento tem —
É esta a dor que a aflige?
Não o sabe ninguém.

Se alguém a espreita nas áleas
Vê-a sorrir sem ver,
Desfolha a sonhar as dálias,
Rainha e não mulher.

As torres do seu passado
Têm as portas fechadas.
O seu mistério é sagrado,
Partidas as espadas.

O anjo da sua capela
Conhece quem ela ama.
A brisa passa por ela,
Mas ela não a chama.

Dói-me quem ela é,
Mas ela não é ninguém.
A sua boca não tem fé
Na própria fé que tem.

Louca, loura, leal
Ao que não quer dizer,
Passa no parque outonal,
Louca, mas não mulher.

E o seu vulto que assombra
Pelo erro da sua calama
Perde-se pela sombra
(O que é ela à minha alma?)


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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