Quisera morar num palácio
À beira-mar.
Lendo qualquer cousa de calmo e antigo, Horácio
Ou Virgílio... cousa serena que o pensar
Não perturbasse... E no meu castelo, dourasse-o
O sol no seu diurno acabar,
Ou sonhasse-o outro, frio e isolado, o luar,
Eu saberia o meu tédio adormecer e acalmar.

E se alguém me desse um castelo, um palácio
À beira-mar,
No lugar de cabo onde o poente dourasse-o
De um resplendor silencioso de estar,
Ou fosse frio sobre ele o sombrio luar
Eu dir-lhe-ia: «não quero, visto que existe, o palácio
À beira-mar.»

22 - 6 - 1911

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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