Lusa sobe,
sobe a calada,
sobe e no pode
que vai cansada.
Sobe, Lusa,
Lusa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
j noite fechada. 
Na mo grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonada.
Anda Lusa,
Lusa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calada.

Lusa nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Lusa,
Lusa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-ihe as coxas,
no d por nada.
Anda Lusa,
Lusa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calada.

Chegou a casa
no disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loia,
varreu a escada;
deu jeito casa
desarranjada;
coseu a roupa
j remendada;
despiu-se pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
no deu por nada.
Anda Lusa,
Lusa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calada.

Na manh dbil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
d-lhe a mamada;
veste-se pressa,
desengonada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre aodada,
galga o passeio,
desce a calada,
chega oficina
hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre cantina,
volta toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
j noite fechada.
Lusa arqueja pela calada.
Anda Lusa,
Lusa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calada,
sobe que sobe,
sobe a calada,
sobe que sobe,
sobe a calada.
Anda Lusa,
Lusa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calada.

 


In Teatro do Mundo
António Gedeão
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