Sorrindo, com as mãos ainda estando
Sobre o teclado do piano findo,
Olhas os que te ouviram, convidando
Cada um deles a sorrir, sorrindo.

Não queres que te digam que tocaste
Com arte, ou segurança, ou emoção.
Sorriste. E assim, sem o sentir, ficaste
Cativa de nenhuma sensação.

Quando a música acaba, acaba o mundo,
E o que há de tudo é nada valer nada.
E ninguém sente senão um profundo
Desejo de uma coisa já acabada.

Mas tu sorris... E todos despertamos
E todos somos gratos e o dizemos.
Mas entre nós há um rio, e escutamos..
O barco voga sem o som dos remos.

10 - 8 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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