Minha vida tem sido, em suma,
      Reles e obscura,
Sem ventura nem desventura,
      Sombras de trapos na bruma.

Como um caixeiro tenho ficado
      A um balcão nulo,
Como acontece isto ao amante Catulo
      Nem a poeta, conselheiro de Estado.

Até quando me amaram
      Parece que me ofendiam.
Do casaco de gente com que me albardaram
      Até os botões caíam.

Hoje estou calmo, um pouco certo,
      Um tanto ou quanto já eu
E olho, passado, o portão aberto,
      Mas digo sempre: «não é meu».

24 - 7 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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