O sono é suave, mas o meio-sono
É mais suave ainda. Estar sabendo
Que se está nesse lúcido abandono
É como a brisa à sombra se entretendo.

O amor é suave, mas o amar-talvez
É mais suave ainda. É como estar
Sobre a extensão alegre de um convés
A fitar sem os ver o céu e o mar.

A vida é suave, mas poder haver
Outra melhor é mais suave ainda.
É como entre a erva alta o malmequer
Que, uma vez visto, todo o campo alinda.

Assim, sob altos ramos rumorosos
Pensei, e a breve e incerta viração
Dava-me pensamentos mais ditosos
Do que quaisquer felicidades dão.

Pouco sabemos do que há ou somos.
Nada sabemos do que nos espera.
Para uns a vida é a fruta, com seus gomos.
Para outros é só a primavera.

29 - 6 - 1919

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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