Num templo muito longe de onde estamos
Um par que ia na vida da maneira
Com que todos, se somos dois, passamos
Encontrou um Buddha de madeira

E como eram jovens compuseram
O frio e negro vulto impenetrável
Que cisma eterno □
E levantando um dedo inexplicável.

Quando, porém, a mocidade dói
Porque o amor doa, olharam a figura
Pensaram como o □ enganar sói
E por baixo das flores a negrura

Aparece ao olhar relembrado
O que era o Buddha velho, □ e imundo
O dedo inexplicável levantado
E alheio de expressão à alma e ao mundo.

13 - 9 - 1918

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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