Àquele cuja forma é não ter,
E cuja luz é não haver luz nele,
O Abismo de ser só abismo, aquele
Cujo conteúdo contém não conter,

Eu ergo a voz de quanto em mim repele
A Aparência e o Desejo de viver
E a visão material que é nada ver
Salvo a ilusão que a ilusão impele.

Ergo e peço: meus dias dolorosos,
Esperem-nos vãs dores ou vãos gozos,
Que murchem de sentido em mim! Eu seja

Nada mais que a Memória do que fui
E em vida o seja, a sombra aonde flui

E a minha é a voz do Universo

Aquele que é a sua própria sombra
Todo o Possível é só uma estrela
No infindo céu do seu Manifestar-se.

Ergo e peço: através de quantas mágoas
A alma análoga □

O abstracto Limiar das sete portas
Por onde, sobre as lajes de almas mortas
A ciência [passa],Número do nome teu.


II


Aquele que é a sua própria sombra
E cujo rasto dá a vida à vida,
Cuja Noção, na Altura aparecida,
Transforma em Fé □

Eu viro para onde ele está posto
Com dolorosa e crente solidão
O sentido do firme coração
Que à minha alma, exprimindo-a, é olhar e rosto.

ELE é; todo o resto é enganar-se.
Para si-próprio Ele os seus lábios sela.
Todo o Possível é só uma estrela
No infindo céu do seu Manifestar-se.

Como uma luz dos homens que, a apagar-se,
Num repente de morte aumenta e vela
Sua própria agonia, o mundo — a cela
Do espírito — n’Ele é Ele a naufragar-se.

E o meu silêncio diz
Que ELE não concedendo está mais perto
Que o concedido por quem não concede.

As palavras na altura onde ainda assombra
A orla da sombra dele, não têm forma.
Em torno a minha alma se transforma.
Aquele que é a sua própria sombra
Na dolorosa rota que □

Por isso a minha voz a Ele erguida
Lhe pede a Morte, a Verdadeira Vida —
Não-ser, verso do verso da medalha
Onde as estrelas □

Meu ser vive na sombra e no desejo.


[1930]

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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