Entre nuvens casuais
Brilham astros ao acaso,
Nos desníveis desiguais
De não haver nada mais
Que nuvens num lento atraso.

Não há vento que se sinta
Mas as lentas nuvens vão
Pela noite, na indistinta
Passagem que vaga pinta
Sombras brancas no céu vão.

Não há vento… Não há nada…
Mas passam as nuvens e há
Em minha alma frustre e errada
Qualquer certeza enganada,
Qualquer dor que lá não está.

É talvez uma tristeza
Que como as nuvens existe
Só porque passam e nem lesa
A alma, nem tem beleza
Nem é mais do que ser triste.


[23-6-1934]

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar