Já que a tarde desceu serena
E alguma cousa a sombra quer
Que faça, por sombreados, pena
Vivamos um canto qualquer...

Consideremo-nos amantes
Sem sexo, nem olhar, nem beijos
Em terras □ e distantes
Onde não chegam os desejos...

Almas do corpo despidas
Entressonham-nos amando,
Em alamedas □ compridas
E pinheiros ao vento acenando...

Muito longe daqui, tão longe
Que nem saibamos o que é
Essa coisa que nos faz monge
O que em nós □

E ao sonhar tristes este sonho —
A tarde □ escureceu —
Não nos olhemos, nem □
Saibas de mim ou de ti eu...

Mas um do outro esquecidos
Na vã presença corporal
Os nossos sonhos desmedidos
Sejam o nosso sonho igual

E seja sem consciência alguma
Que somos dois em um, nas calmas
□, prova isso é do amor, em suma,

O mesmo sonho em duas almas.
O mesmo sonho, inteiramente
Co-espontâneo, no mesmo instante
Na tua mente, e minha mente

E quando a luz vier desfazer
O nosso □ tristonho
Notamos no nosso olhar ver
As lágrimas do mesmo sonho.

 

18 - 4 - 1911

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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