Nenhuma ideia em nós pode nascer
Alheia à realidade, inda que a esta
Onde nos cremos entes a viver
Pareça estranha

Toda a aspiração — quem sabe! — deve
Ser uma vista  um obscuro
Ser dum longínquo e próximo futuro
Tudo se realiza. O impossível
É unicamente inconcebível;
Só o tangível é que é intangível
Só o próximo e o crível é o incrível
O mundo é a ilusão.

Antigos sábios  previam
O que hoje é, antigas crenças eram
Intuições vagas do que é hoje claro;
O que está além do que os sentidos tomam
Não é um outro mundo; é o mesmo mundo
Que os olhos o não vejam

O mar é o mesmo no seu fundo como
Na superfície, 

Todo o hoje tem um amanhã.

O amanhã pode ser apenas noite
Ou pode ser numa manhã aurora.

 

 espaço deixado em branco pelo autor.

21 - 8 - 1910

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar