Nesta vida, em que sou meu sono,
Não sou meu dono,
Quem sou é quem me ignoro e vive
Através desta névoa que sou eu
Todas as vidas que eu outrora tive.
Mar sou; baixo marulho ou alto rujo,
Mas minha cor vem do meu alto céu,
E só me  encontro quando de mim fujo.
Quem quando eu era infante me guiava
Senão a vera alma que em mim estava?
Atada pelos braços corporais,
Não podia ser mais.
Mas, certo, um gesto, olhar ou esquecimento
Também, aos olhos de quem bem olhasse
A Presença Real sob disfarce
Da minha alma perscruto sem intento.
Não sou quem sou. Sou o emissário meu
Não me conheço □

Sou Deus onde sou eu, aqui não sou.

Vejo passar os barcos pelo mar,
Suas velas, como asas do que vejo,
Trazem-me um vago e nítido desejo
De ser quem foi, sem eu saber que foi.
Por isso tudo lembra o meu ser lar,
E porque o lembra quanto sou me dói.

□ espaço deixado em branco pelo autor

 

11 - 12 - 1932

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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