Porque o olhar de quem não merece
O meu amor para outro olhou,
Uma dor fria me enfurece,
Decido odiar quem me insultou.

Vil dor, vil causa e vil remédio!
Quanto melhor não fora achar-se
No antigo sem-amor, com tédio,
Mas sem dor de que envergonhar-se!

Ainda assim nem no fundo
Da taça desta dor que é vil
Há um vago □
Um vago □ subtil...

Por isso talvez valha mais
Dar por não vis a causa e a dor
E ir buscar o amor □
Como se o sonho fosse o amor.

 

□ espaço deixado em branco pelo autor

15 - 2 - 1920

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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