[I]

Sua sombra precursora já é bela...
Com que beleza outra que a duma estrela
Ou de uma flor, □ e peregrina
Ela vem, tão humana que é divina...

Nasceu do mar nalgum momento etéreo
Da sua carne glauca, e por mistério
Dos que a sorte humanamente aos Deuses deu
Não era virgem já quando nasceu...

II

Ao meu ouvido □ de medo
Disseram ser segredo não ter Alma
Ela é uma sombra-luz. Não contém
Outra vida que a vida que ela tem.

Tem a alma à flor do corpo, ri com todo
O corpo, todo o corpo é uma alma-modo
De formosura... Sua carne é branca
E um ritmo de onda vai-lhe de anca a anca...

Que carnalmente espiritual! A onda
Deu-lhe o ritmo do ser, ritmo que sonda
O oceano da Beleza anterior
Aos Deuses e ao seu □ fulgor...


[1910]

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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