O dia opaco de luz
Ao ‘scurecer, se traduz
Para uma quietação morna
— V’rão quentemente outonal —
Auréola que contorna
O negro do pinheiral
E um laranjal sem calma entorna
Em torno a meu vago mal.

Nesta hora peso-me, absorto;
Sinto-me a alma de um morto;
Não sei de que serve ter
A insciência de viver.
O perfil-nudez dos montes
É colorido de calma
E essa trégua, esse esquecer
Que aureolada de luz os horizontes
É-me exterior à alma.

É neste tépido □ de que gosta
Parte de mim que me não sinto minha
Que eu sei que a Natureza encosta
A testa à mão, e sonha, já vizinha
De se sentir inútil e cansada,
Consciente de mistério sem cruz
Cada traço de estrada entristece-se-me de luz.

Não sei o que, que desconfiança cega
No porvir, desesperança espiritual
Como um adeus ao morto sol me chega
      À alma desigual
      De ser desejo e mágoa
Do que sente ser bem, e conhece ser mal.

      Morno esquecer,
Porque não me esqueço eu no teu mover?
      Que confiado dizer
      Ainda poderia supor-me a ter?
Salve-o eu agora, quando a luz é um beijo
      Quente e a arrefecer
      Como o último beijo de prazer.

      Escureceu: acinzentou-se de longe
      O horizonte parado
Será a alma parda ou tom de monge...
      Meu corpo fatigado
Meu corpo fatigado da alma
Quantos poros terei para a calma!

7 - 4 - 1912

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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