Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor, 
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram 
Cartas de amor 
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia 
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje 
As minhas memórias 
Dessas cartas de amor 
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

21 - 10 - 1935

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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