Se já não torna a eterna primavera
      Que em sonhos conheci,
O que é que o exausto coração espera
      Do que não tem em si?

Se não há mais florir de árvores feitas
      Só de alguém as sonhar,
Que coisas quer o coração perfeitas,
      Quando, e em que lugar?

Não: contentemo-nos com ter a aragem
      Que, porque existe, vem
Passar a mão sobre o alto da folhagem,
      E assim nos faz um bem.

 


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar