Pousa de leve
      Inda que um breve
Momento, a tua mão de neve
Sobre meu triste coração
      Ainda é cedo…
      Guarda o segredo
E pousa leve, como a medo,
Sobre minha alma a tua mão.
      Como é que na alma
      Pousa uma palma
De mão e como é que a acalma
De toda a dor que não tem fim?
      Não sei sabê-lo.
      No meu cabelo,
Ao menos, pousa, com desvelo,
Tua mão leve, de marfim.
      Que é a vida? Nada.
      A sorte? Estrada
Que leva só a alma enganada
Por onde vai e onde não quer…
      Que é a alma? Um sono?
      Ser? O abandono
De ser, e as folhas que no outono
O ouvido sente anoitecer…
13 - 5 - 1925

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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