É um campo verde e vasto,
      Sozinho sem saber,
De vagos gados pasto
      Sem águas a correr.

Só campos, só sossego,
      Só solidão calada.
Olho-o e nada nego
      E não afirmo nada.

Aqui em mim me exalço
      No meu fiel torpor.
O bem é frouxo e falso,
      O mal é erro e dor.

Agir é não ter casa,
      Pensar é nada ter.
Aqui nem brisa ou asa
      Nem razão para a haver.

E um vago sono desce
      Só por não ter razão,
E o mundo alheio esquece
      À vista e ao coração.

Torpor que alastra e excede
      O campo e o gado e os ver.
E a alma nada pede
      E o corpo nada quer.

Feliz sabor de nada,
      Insciência do mundo,
Aqui sem ponte ou estrada,
      Nem horizonte ao fundo.

 

24 - 1 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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