Eu, que vendi a alma a meio diabo
E a quem, no carnaval do sem-remédio,
A Sorte pôs, furtivamente, o rabo
Multicolor e mole do meu tédio —

Eu, que não sou ninguém de tanto ser,
E a cuja face a dúvida arrojou
Farinha, a fé que tive que perder,
Água, o desgosto de ficar quem sou —

Eu, assim mesmo, ainda sei mudança,
E, lançado no abismo de aqui estar,
Lembro os meus amplos tempos de criança
E como era rápida a esperança…
Deixem-me ouvir o coração parar!...

 

16 - 3 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar