Todos nós temos uma ponte que passar...
Reparamos às vezes que já a passámos.
Aparta com as mãos levemente os ramos
E sorri para mim, com o ver-me no olhar...

Se nós nos inquietássemos muito, estaria
Sempre a meio da ponte a pobre vida que temos...
Do barco amarrado ao cais levaram os remos
Senão a nossa dupla inconfidência embarcaria...

Mas não vale a pena, nem merece elogio, o tédio...
Embalamo-nos um ao outro, como se valesse...

E a vida vive-se com que ter que tomar um remédio.

14 - 3 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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