Levando a bordo El-Rei D. Sebastião, 
E erguendo, como um nome, alto o pendão 
Do Império, 
Foi-se a última nau, ao sol aziago 
Erma, e entre choros de ânsia e de pressago 
Mistério. 

Não voltou mais. A que ilha indescoberta 
Aportou? Voltará da sorte incerta 
Que teve? 
Deus guarda o corpo e a forma do futuro, 
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro 
E breve. 

Ah, quanto mais ao povo a alma falta, 
Mais a minha alma atlântica se exalta 
E entorna, 
E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço, 
Vejo entre a cerração teu vulto baço 
Que torna. 

Não sei a hora, mas sei que há a hora, 
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora 
Mistério. 
Surges ao sol em mim, e a névoa finda: 
A mesma, e trazes o pendão ainda 
Do Império. 


In Mensagem , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, 1997
Fernando Pessoa
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