Nas ribeiras do Tejo, a uma areia
de rochas coroada, cada dia
vinha Ergasto chamar por Galateia.

No tinha que esperar, mas no queria
perder sua esperana, e dos penedos,
que o Tejo gasta, aprende e aporfia.

Depois de discorrer por seus segredos
uma vez comeou; e entanto teve
o rio sossegado, os ventos quedos.

Que fica por provar? Ou que mais deve
fazer quem, por salvar dum risco a vida
muito contente a muito mais se atreve?

Roguei, chorei, e a fera embravecida
to firme em dio tem posta a vontade
quanto de amor mudada e arrependida.

Porventura mostrou qualquer saudade
depois de minha ausncia? Porventura
teve de minhas lgrimas piedade?

Segue pois, fera, segue aquela dura
condio que te ensina, que esperana
tenho de teu castigo bem segura.

Prove suas mesmas leis tua esquivana;
e o Cu, que a meu pesar te v mudada,
ordene sobre ti cruel vingana.

J pode ser que, tendo exp'rimentada
a seta de que tantas vezes usas,
ds a fria passada por passada.

Recebers melhor minhas escusas;
e ouvindo-me queixar, dirs comigo
que sem razo minhas razes acusas.

Que falo, ou onde estou? A que perigo
me pe esta cruel? E eu vivo nela,
pera mim peo logo este castigo.

Vive, pastora, alegre, e uma estrela
benigna influa em ti tantos favores
que sejas to ditosa como s bela.

Ouas sempre soar em teus louvores
esta nossa ribeira e largamente
te dem as plantas fruto, o prado flores.

Comigo corra tudo diferente,
no me refresque a virao no Estio,
nem nos frios do Inverno o sol me aquente.

Quero aqui num lugar ermo e sombrio,
como nocturno pssaro, ficar-me,
de meus olhos fazendo um largo rio.

Pastores, que viro por consolar-me,
vendo que seu trabalho em vo me cansa,
por remdio melhor tero deixar-me.

Galateia cruel, tambm descansa
na tempestade o vento furioso;
tua fria somente se no amansa.

O nosso campo quem te fez odioso
que tu, quando por ele passeavas,
a todo o tempo achavas gracioso?

No lhe negues a graa que lhe davas,
que o gado j sem ela o no conhece,
e nascem tojos, onde flor criavas.

Vem, Galateia, ver quando amanhece,
as aves saudar a fresca aurora,
tanto a ausncia do sol as aborrece.

Vers o Tejo que, indinado outrora,
sobre esta areia sai lanando escuma,
e escassamente as ondas move agora.

E tu, cruel, no queres que presuma
inda alguma hora ver teu peito brando,
seno que sem remdio me consuma.

Os pssaros pelo ar, de quando em quando,
param a meu cantar; mas em ouvindo
teu nome, voam logo, e o vo cantando.

Esto estes salgueiros repetindo,
co som de murmurar da verde rama,
os versos que em seu tronco estive abrindo.

Tu, Galateia, surda a quem te chama,
ingrata a quem te serve, em pago deste
desprezo a quem te adora, dio a quem te ama.

E tanto em cruel ira te acendeste
que, para me deixar, tambm deixaste
o surro que a teus ombros j trouxeste.

Porque o mandei fazer o desprezaste;
porm nunca vejas que de outrem seja,
basta que a teu pescoo o penduraste.

No falta outra pastora que o deseja;
foi feito para ti, ningum o traga;
quem quer que o desejar morra de inveja.

Quando o vejo comigo, uma mortal chaga
renovo com lembranas saudosas,
que o decurso do tempo no apaga.

Tambm tenho guardadas aquelas rosas
.que te ofereci, que me enjeitaste logo;
parece que ainda esto de ti queixosas.

Secou-as tua ausncia e aquele fogo,
que acendes em meu peito com fugir-me
e com mais dura estar quanto eu mais rogo.

Como poderei eu de ti partir-me,
se tua imagem dentro em mim faz guerra,
sem nunca mais deixar de perseguir-me?

Buscarei com meu gado estranha terra;
habitarei onde outro sol mais arde,
ou onde a neve tem coberta a serra.

Mas manda Amor dentro na alma guarde
esta dor, porque a traga na memria
quando amanhece, e quando se faz tarde.

Quem me dissera, estando em minha glria,
que havia ainda de ver to desprezados
estes despojos da passada histria!

Doces despojos por meu mal guardados,
alegres noutro tempo, agora tristes,
que no seio de amor fostes criados!

Quando a minha Pastora irada vistes,
disse-vos o mal, que juntos padecemos.
Como partir-vos dela consentistes?

Fizreis-lhe por mim grandes extremos,
e, quando eu pena alguma merecera,
por vs dissreis: «Ns que merecemos»?

Solitrio sem vs melhor vivera,
e as discrdias cruis que esta alma minha,
quando vos vejo, tem, no nas tivera.

Ah, cruel Galateia, to asinha
se esquece amor, que tanto fundamento,
tantas razes em teu peito tinha!

Aquele to contino pensamento,
aqueles sonhos sempre em meu proveito,
tudo lanas, furiosa, ao vento?

Aquele monte de firmeza feito
que me val' j contigo, ou que me presta,
se tudo em nuvens vs vejo desfeito?

Tanto segredo alegre, tanta festa,
tanta conversao, sem prejuzo,
em que passaste j comigo a sesta!

As histrias, as prticas de riso,
as dissimulaes por poder ver-te,
aquelas zombarias to de siso,

podem deixar agora de mover-te?
Ou com fingido esquecimento queres
aprender pouco a pouco a esquecer-te?

Se isto pretendes, nunca tal esperes,
que minha f, voando como esprito,
l te h-de perseguir como estiveres.

Inda agora me ensaio e me exercito,
pera seguir, pera sofrer durezas,
que este meu sofrimento infinito.

Chovam sobre mim frias e asperezas,
que as fachas, que nesta alma esto ardendo,
fogo que no se apaga as tem acesas.

Ah, rstico Pastor, que andas fazendo?
Tu buscas Galateia, ela se esconde,
e essas tuas razes, que ests dizendo,
ouve-tas muito bem, mas no responde.

Luís Vaz de Camões
[NAS RIBEIRAS DO TEJO A UMA AREIA]
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