1
Agora tu, Calope, me ensina
O que contou ao Rei o ilustre Gama;
Inspira imortal canto e voz divina
Neste peito mortal, que tanto te ama.
Assi o claro inventor da Medicina,
De quem Orfeu pariste, linda Dama,
Nunca por Dafne, Clcie ou Leucotoe
Te negue o amor divido, como soe.

2
Pe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
Como merece a gente Lusitana;
Que veja e saiba o mundo que do Tejo
O licor de Aganipe corre e mana.
Deixa as flores de Pindo, que j vejo
Banhar-me Apolo na gua soberana;
Seno direi que tens algum receio
Que se escurea o teu querido Orfeio.

3
Prontos estavam todos escuitando
O que o sublime Gama cantaria,
Quando, despois de um pouco estar cuidando,
Alevantando o rosto, assi dizia:
— «Mandas-me, Rei, que conte declarando
De minha gente a gro genealogia;
No me mandas contar estranha histria,
Mas mandas-me louvar dos meus a glria.

4
«Que outrem possa louvar esforo alheio,
Cousa que se costuma e se deseja;
Mas louvar os meus prprios, arreceio
Que louvor to suspeito mal me esteja;
E, pera dizer tudo, temo e creio
Que qualquer longo tempo curto seja;
Mas, pois o mandas, tudo se te deve;
Irei contra o que devo, e serei breve.

5
«Alm disso, o que a tudo, enfim, me obriga
no poder mentir no que disser,
Porque de feitos tais, por mais que diga,
Mais me h-de ficar inda por dizer.
Mas, por que nisto a ordem leve e siga,
Segundo o que desejas de saber,
Primeiro tratarei da larga terra,
Despois direi da sanguinosa guerra.

6
«Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
Meta Setentrional do Sol luzente,
E aquela que por fria se arreceia
Tanto, como a do meio por ardente,
Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
Pela parte do Arcturo e do Ocidente,
Com suas salsas ondas o Oceano,
E, pela Austral, o Mar Mediterrano.

7
«Da parte donde o dia vem nascendo,
Com sia se avizinha; mas o rio
Que dos montes Rifeios vai correndo
Na alagoa Metis, curvo e frio,
As divide, e o mar que, fero e horrendo,
Viu dos Gregos o irado senhorio,
Onde agora de Tria triunfante
No v mais que a memria o navegante.

8
«L onde mais debaxo est do Plo,
Os montes Hiperbreos aparecem
E aqueles onde sempre sopra Eolo,
E co nome de sopros se enobrecem.
Aqui to pouca fora tm de Apolo
Os raios que no mundo resplandecem,
Que a neve est contino pelos montes,
Gelado o mar, geladas sempre as fontes.

9
«Aqui dos Citas grande quantidade
Vivem, que antigamente grande guerra
Tiveram, sobre a humana antiguidade,
Cos que tinham ento a Egpcia terra;
Mas quem to fora estava da verdade
(J que o juzo humano tanto erra),
Pera que do mais certo se informara,
Ao campo Damasceno o perguntara.

10
«Agora nestas partes se nomeia
A Lpia fria, a inculta Noruega,
Escandinvia Ilha, que se arreia
Das vitrias que Itlia no lhe nega.
Aqui, enquanto as guas no refreia
O congelado Inverno, se navega
Um brao do Sarmtico Oceano
Pelo Brs[s]io, Sucio e frio Dano.

11
«Entre este Mar e o Tnais, vive estranha
Gente: Rutenos, Moscos e Livnios,
Srmatas outro tempo; e na montanha
Hircnia, os Marcomanos so, Polnios,
Sujeitos ao Imprio de Alemanha,
So Saxones, Bomios e Pannios,
E outras vrias naes, que o Reno frio
Lava, e o Danbio, Amsis e lbis rio.

12
«Entre o remoto Istro e o claro Estreito
Aonde Hele deixou, co nome, a vida,
Esto os Traces de robusto peito,
Do fero Marte ptria to querida,
Onde, co Hemo, o Rdope sujeito
Ao Otomano est, que sometida
Bizncio tem a seu servio indino.
Boa injria do grande Costantino!

13
«Logo de Macednia esto as gentes,
A quem lava do xio a gua fria;
E vs tambm, terras, excelentes
Nos costumes, engenhos e ousadia,
Que criastes os peitos eloquentes
E os juzos de alta fantasia
Com quem tu, clara Grcia, o Cu penetras
(E no menos por armas, que por letras).

14
«Logo os Dlmatas vivem; e, no seio,
Onde Antenor j muros levantou,
A soberba Veneza est no meio
Das guas, que to baxa comeou.
Da terra um brao vem ao mar, que, cheio
De esforo, naes vrias sujeitou;
Brao forte, de gente sublimada,
No menos nos engenhos que na espada.

15
«Em torno o cerca o Reino Neptunino,
Cos muros naturais por outra parte;
Pelo meio o divide o Apinino,
Que to ilustre fez o ptrio Marte;
Mas, despois que o Porteiro tem divino,
Perdendo o esforo veio e blica arte;
Pobre est j da antiga potestade.
Tanto Deus se contenta de humildade!

16
«Glia ali se ver, que nomeada
Cos Cesreos triunfos foi no mundo;
Que do Squana e Rdano regada
E do Garuna frio e Reno fundo.
Logo os montes da Ninfa sepultada,
Pirene, se alevantam, que, segundo
Antiguidades contam, quando arderam,
Rios de ouro e de prata anto correram.

17
«Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
Como cabea ali de Europa toda,
Em cujo senhorio e glria estranha
Muitas voltas tem dado a fatal roda;
Mas nunca poder, com fora ou manha,
A Fortuna inquieta pr-lhe noda,
Que lha no tire o esforo e ousadia
Dos belicosos peitos que em si cria.

18
«Com Tingitnia entesta, e ali parece
Que quer fechar o Mar Mediterrano,
Onde o sabido Estreito se enobrece
Co extremo trabalho do Tebano.
Com naes diferentes se engrandece,
Cercadas com as ondas do Oceano,
Todas de tal nobreza e tal valor,
Que qualquer delas cuida que milhor.

19
«Tem o Tarragons, que se fez claro
Sujeitando Partnope inquieta;
O Navarro, as Astrias, que reparo
J foram contra a gente Mahometa;
Tem o Galego cauto e o grande e raro
Castelhano, a quem fez o seu Planeta
Restituidor de Espanha e senhor dela;
Btis, Leo, Granada, com Castela.

20
«Eis aqui, quase cume da cabea
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar comea
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Cu justo que florea
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora; e l na ardente
frica estar quieto o no consente.

21
«Esta a ditosa ptria minha amada,
qual se o Cu me d, que eu sem perigo
Torne, com esta empresa j acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitnia, derivada
De Luso ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela anto os ncolas primeiros.

22
«Desta o Pastor nasceu que no seu nome
Se v que de homem forte os feitos teve,
Cuja fama ningum vir que dome,
Pois a grande de Roma no se atreve.
Esta, o Velho que os filhos prprios come,
Por decreto do Cu, ligeiro e leve,
Veio a fazer no mundo tanta parte,
Criando-a Reino ilustre; e foi destarte:

23
«Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,
Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
Que, por armas sanguinas, fora e manha,
A muitos fez perder a vida e a terra.
Voando deste Rei a fama estranha
Do Herculano Calpe Cspia Serra,
Muitos, pera na guerra esclarecer-se,
Vinham a ele e morte oferecer-se.

24
«E com amor intrnseco acendidos
Da F mais que das honras populares,
Eram de vrias terras conduzidos,
Deixando a ptria amada e prprios lares.
Despois que em feitos altos e subidos
Se mostraram nas armas singulares,
Quis o famoso Afonso que obras tais
Levassem prmio digno e des iguais.

25
«Destes Anrique (dizem que segundo
Filho de um Rei de Hungria exprimentado)
Portugal houve em sorte, que no mundo
Ento no era ilustre nem prezado;
E, pera mais sinal de amor profundo,
Quis o Rei Castelhano que casado
Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
E com ela das terras tomou posse.

26
«Este, despois que contra os descendentes
Da escrava Agar vitrias grandes teve,
Ganhando muitas terras adjacentes,
Fazendo o que a seu forte peito deve,
Em prmio destes feitos excelentes
Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
Um filho, que ilustrasse o nome ufano
Do belicoso Reino Lusitano.

27
«J tinha vindo Anrique da conquista
Da cidade Hieroslima sagrada,
E do Jordo a areia tinha vista,
Que viu de Deus a carne em si lavada
(Que, no tendo Gotfredo a quem resista,
Despois de ter Judeia sojugada,
Muitos, que nestas guerras o ajudaram,
Pera seus senhorios se tornaram);

28
«Quando, chegado ao fim de sua idade,
O forte e famoso Hngaro estremado,
Forado da fatal necessidade,
O esprito deu a Quem lho tinha dado.
Ficava o filho em tenra mocidade,
Em quem o pai deixava seu traslado,
Que do mundo os mais fortes igualava,
Que de tal pai tal filho se esperava.

29
«Mas o velho rumor (no sei se errado,
Que em tanta antiguidade no h certeza)
Conta que a me, tomando todo o estado,
Do segundo himeneu no se despreza.
O filho rfo deixava deserdado,
Dizendo que nas terras a grandeza
Do senhorio todo s sua era,
Porque, pera casar, seu pai lhas dera.

30
«Mas o prncipe Afonso (que destarte
Se chamava, do av tomando o nome),
Vendo-se em suas terras no ter parte,
Que a me com seu marido as manda e come,
Fervendo-lhe no peito o duro Marte,
Imagina consigo como as tome.
Revolvidas as causas no conceito,
Ao propsito firme segue o efeito.

31
«De Guimares o campo se tingia
Co sangue prprio da intestina guerra,
Onde a me, que to pouco o parecia,
A seu filho negava o amor e a terra.
Co ele posta em campo j se via;
E no v a soberba o muito que erra
Contra Deus, contra o maternal amor;
Mas nela o sensual era maior.

32
« Progne crua, mgica Medeia!
Se em vossos prprios filhos vos vingais
Da maldade dos pais, da culpa alheia,
Olhai que inda Teresa peca mais!
Incontinncia m, cobia feia,
So as causas deste erro principais:
Cila, por ũa, mata o velho pai;
Esta, por ambas, contra o filho vai.

33
«Mas j o Prncipe claro o vencimento
Do padrasto e da inica me levava;
J lhe obedece a terra, num momento,
Que primeiro contra ele pelejava;
Porm, vencido de ira o entendimento,
A me em ferros speros atava;
Mas de Deus foi vingada em tempo breve.
Tanta venerao aos pais se deve!

34
«Eis se ajunta o soberbo Castelhano
Pera vingar a injria de Teresa,
Contra o to raro em gente Lusitano,
A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.
Em batalha cruel, o peito humano,
Ajudado da Anglica defesa,
No s contra tal fria se sustenta,
Mas o inimigo asprrimo afugenta.

35
«No passa muito tempo, quando o forte
Prncipe em Guimares est cercado
De infinito poder, que desta sorte
Foi refazer-se o imigo magoado;
Mas, com se oferecer dura morte
O fiel Egas amo, foi livrado;
Que, de outra arte, pudera ser perdido,
Segundo estava mal apercebido.

36
«Mas o leal vassalo, conhecendo
Que seu senhor no tinha resistncia,
Se vai ao Castelhano, prometendo
Que ele faria dar-lhe obedincia.
Levanta o inimigo o cerco horrendo,
Fiado na promessa e conscincia
De Egas Moniz; mas no consente o peito
Do moo ilustre a outrem ser sujeito.

37
«Chegado tinha o prazo prometido,
Em que o Rei Castelhano j aguardava
Que o Prncipe, a seu mando sometido,
Lhe desse a obedincia que esperava.
Vendo Egas que ficava fementido,
O que dele Castela no cuidava,
Determina de dar a doce vida
A troco da palavra mal cumprida.

38
«E com seus filhos e mulher se parte
A alevantar co eles a fiana,
Descalos e despidos, de tal arte
Que mais move a piedade que a vingana.
— «Se pretendes, Rei alto, de vingar-te
De minha temerria confiana
(Dizia) eis aqui venho oferecido
A te pagar co a vida o prometido.

39
«Vs, aqui trago as vidas inocentes
Dos filhos sem pecado e da consorte;
Se a peitos generosos e excelentes
Dos fracos satisfaz a fera morte,
Vs aqui as mos e a lngua delinquentes:
Nelas ss exprimenta toda sorte
De tormentos, de mortes, pelo estilo
De Snis e do touro de Perilo.»

40
«Qual diante do algoz o condenado,
Que j na vida a morte tem bebido,
Pe no cepo a garganta e, j entregado,
Espera pelo golpe to temido:
Tal diante do Prncipe indinado
Egas estava, a tudo oferecido.
Mas o Rei vendo a estranha lealdade,
Mais pde, enfim, que a ira, a piedade.

41
« gro fidelidade Portuguesa
De vassalo, que a tanto se obrigava!
Que mais o Persa fez naquela empresa
Onde rosto e narizes se cortava?
Do que ao grande Dario tanto pesa,
Que, mil vezes dizendo, suspirava
Que mais o seu Zopiro so prezara
Que vinte Babilnias que tomara.

42
«Mas j o Prncipe Afonso aparelhava
O Lusitano exrcito ditoso,
Contra o Mouro que as terras habitava
De alm do claro Tejo deleitoso;
J no campo de Ourique se assentava
O arraial soberbo e belicoso,
Defronte do inimigo Sarraceno,
Posto que em fora e gente to pequeno;

43
«Em nehũa outra cousa confiado,
Seno no sumo Deus que o Cu regia,
Que to pouco era o povo bautizado,
Que, pera um s, cem Mouros haveria.
Julga qualquer juzo sossegado
Por mais temeridade que ousadia
Cometer um tamanho ajuntamento,
Que pera um cavaleiro houvesse cento.

44
«Cinco Reis Mouros so os inimigos,
Dos quais o principal Ismar se chama;
Todos exprimentados nos perigos
Da guerra, onde se alcana a ilustre fama.
Seguem guerreiras damas seus amigos,
Imitando a fermosa e forte Dama
De quem tanto os Troianos se ajudaram,
E as que o Termodonte j gostaram.

45
«A matutina luz, serena e fria,
As Estrelas do Plo j apartava,
Quando na Cruz o Filho de Maria,
Amostrando-se a Afonso, o animava.
Ele, adorando quem lhe aparecia,
Na F todo inflamado, assi gritava:
— «Aos Infiis, Senhor, aos Infiis,
E no a mi, que creio o que podeis!»

46
«Com tal milagre os nimos da gente
Portuguesa inflamados, levantavam
Por seu Rei natural este excelente
Prncipe, que do peito tanto amavam;
E diante do exrcito potente
Dos imigos, gritando, o cu tocavam,
Dizendo em alta voz: — «Real, real,
Por Afonso, alto Rei de Portugal!»

47
«Qual cos gritos e vozes incitado,
Pola montanha, o rbido moloso
Contra o touro remete, que fiado
Na fora est do corno temeroso;
Ora pega na orelha, ora no lado,
Latindo, mais ligeiro que foroso,
At que, enfim, rompendo-lhe a garganta,
Do bravo a fora horrenda se quebranta:

48
«Tal do Rei novo o estmago acendido
Por Deus e polo povo juntamente,
O Brbaro comete, apercebido
Co animoso exrcito rompente.
Levantam nisto os Perros o alarido
Dos gritos; tocam a arma, ferve a gente,
As lanas e arcos tomam, tubas soam,
Instrumentos de guerra tudo atroam!

49
«Bem como quando a flama que ateada
Foi nos ridos campos (assoprando
O sibilante Breas), animada
Co vento, o seco mato vai queimando;
A pastoral companha, que deitada
Co doce sono estava, despertando
Ao estridor do fogo que se ateia,
Recolhe o fato e foge pera a aldeia:

50
«Destarte o Mouro, atnito e torvado,
Toma sem tento as armas mui depressa;
No foge, mas espera confiado,
E o ginete belgero arremessa.
O Portugus o encontra denodado,
Pelos peitos as lanas lhe atravessa;
Uns caem meios mortos, e outros vo
A ajuda convocando do Alcoro.


51
«Ali se vm encontros temerosos,
Pera se desfazer ũa alta serra,
E os animais correndo furiosos
Que Neptuno amostrou, ferindo a terra.
Golpes se do medonhos e forosos;
Por toda a parte andava acesa a guerra.
Mas o de Luso arns, couraa e malha,
Rompe, corta, desfaz, abola e talha.

52
«Cabeas pelo campo vo saltando,
Braos, pernas, sem dono e sem sentido,
E doutros as entranhas palpitando,
Plida a cor, o gesto amortecido.
J perde o campo o exrcito nefando,
Correm rios do sangue desparzido,
Com que tambm do campo a cor se perde,
Tornado carmesi, de branco e verde.

53
«J fica vencedor o Lusitano,
Recolhendo os trofus e presa rica;
Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
Trs dias o gro Rei no campo fica.
Aqui pinta no branco escudo ufano,
Que agora esta vitria certifica,
Cinco escudos azuis esclarecidos,
Em sinal destes cinco Reis vencidos.

54
«E nestes cinco escudos pinta os trinta
Dinheiros por que Deus fora vendido,
Escrevendo a memria, em vria tinta,
Daquele de Quem foi favorecido.
Em cada um dos cinco, cinco pinta,
Porque assi fica o nmero comprido,
Contando duas vezes o do meio,
Dos cinco azuis que em cruz pintando veio.

55
«Passado j algum tempo que passada
Era esta gro vitria, o Rei subido
A tomar vai Leiria, que tomada
Fora, mui pouco havia, do vencido.
Com esta a forte Arronches sojugada
Foi juntamente; e o sempre enobrecido
Scabelicastro, cujo campo ameno
Tu, claro Tejo, regas to sereno.

56
«A estas nobres vilas sometidas
Ajunta tambm Mafra, em pouco espao,
E, nas serras da Lũa conhecidas,
Sojuga a fria Sintra o duro brao;
Sintra, onde as Naiades, escondidas
Nas fontes, vo fugindo ao doce lao
Onde Amor as enreda brandamente,
Nas guas acendendo fogo ardente.

57
«E tu, nobre Lisboa, que no mundo
Facilmente das outras s princesa,
Que edificada foste do facundo
Por cujo engano foi Dardnia acesa;
Tu, a quem obedece o Mar profundo,
Obedeceste fora Portuguesa,
Ajudada tambm da forte armada
Que das Boreais partes foi mandada.

58
«L do Germnico lbis e do Reno
E da fria Bretanha conduzidos,
A destruir o povo Sarraceno
Muitos com teno santa eram partidos.
Entrando a boca j do Tejo ameno,
Co arraial do grande Afonso unidos,
Cuja alta fama anto subia aos cus,
Foi posto cerco aos muros Ulisseus.

59
«Cinco vezes a Lũa se escondera
E outras tantas mostrara cheio o rosto,
Quando a cidade, entrada, se rendera
Ao duro cerco que lhe estava posto.
Foi a batalha to sanguina e fera
Quanto obrigava o firme prs[s]uposto
De vencedores speros e ousados,
E de vencidos j desesperados.

60
«Destarte, enfim, tomada se rendeu
Aquela que, nos tempos j passados,
grande fora nunca obedeceu
Dos frios povos Cticos ousados,
Cujo poder a tanto se estendeu,
Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
E, enfim, co Btis tanto alguns puderam
Que terra de Vandlia nome deram.

61
«Que cidade to forte porventura
Haver que resista, se Lisboa
No pde resistir fora dura
Da gente cuja fama tanto voa?
J lhe obedece toda a Estremadura,
bidos, Alanquer (por onde soa
O tom das frescas guas entre as pedras,
Que, murmurando, lava) e Torres Vedras.

62
«E vs tambm, terras Transtaganas,
Afamadas co dom da flava Ceres,
Obedeceis s foras mais que humanas,
Entregando-lhe os muros e os poderes;
E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
Se sustentar a frtil terra queres;
Que Elvas e Moura e Serpa, conhecidas,
E Alcare do Sal esto rendidas.

63
«Eis a nobre cidade, certo assento
Do rebelde Sertrio antigamente,
Onde ora as guas ntidas de argento
Vm sustentar de longe a terra e a gente,
Pelos arcos reais, que, cento e cento,
Nos ares se alevantam nobremente,
Obedeceu por meio e ousadia
De Giraldo, que medos no temia.

64
«J na cidade Beja vai tomar
Vingana de Trancoso destruda
Afonso, que no sabe sossegar,
Por estender co a fama a curta vida.
No se lhe pode muito sustentar
A cidade; mas, sendo j rendida,
Em toda a cousa viva a gente irada
Provando os fios vai da dura espada.

65
«Com estas sojugada foi Palmela
E a piscosa Sezimbra e, juntamente,
Sendo ajudado mais de sua estrela,
Desbarata um exrcito potente
(Sentiu-o a vila e viu-o a serra dela),
Que a socorr-la vinha diligente
Pela fralda da serra, descuidado
Do temeroso encontro inopinado.

66
«O Rei de Badajoz era, alto Mouro,
Com quatro mil cavalos furiosos
Inmeros pees, de armas e de ouro
Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.
Mas, qual no ms de Maio o bravo touro,
Cos cimes da vaca, arreceosos,
Sentindo gente, o bruto e cego amante,
Salteia o descuidado caminhante:

67
«Destarte Afonso, sbito mostrado,
Na gente d, que passa bem segura,
Fere, mata, derriba, denodado;
Foge o Rei Mouro, e s da vida cura.
Dum pnico terror todo assombrado,
S de segui-lo o exrcito procura,
Sendo estes que fizeram tanto abalo
No mais que s sessenta de cavalo.

68
«Logo segue a vitria, sem tardana,
O gro Rei incansbil, ajuntando
Gentes de todo o Reino, cuja usana
Era andar sempre terras conquistando.
Cercar vai Badajoz, e logo alcana
O fim de seu desejo, pelejando
Com tanto esforo e arte e valentia,
Que a fez fazer s outras companhia.

69
«Mas o alto Deus, que pera longe guarda
O castigo daquele que o merece,
Ou, pera que se emende, s vezes tarda,
Ou por segredos que homem no conhece,
Se at qui sempre o forte Rei resguarda
Dos perigos a que ele se oferece,
Agora lhe no deixa ter defesa
Da maldio da me que estava presa:

70
«Que, estando na cidade que cercara,
Cercado nela foi dos Leoneses,
Porque a conquista dela lhe tomara,
De Leo sendo e no dos Portugueses.
A pertincia aqui lhe custa cara,
Assi como acontece muitas vezes,
Que em ferros quebra as pernas, indo aceso
A batalha, onde foi vencido e preso.

71
« famoso Pompeio, no te pene
De teus feitos ilustres a runa,
Nem ver que a justa Nmesis ordene
Ter teu sogro de ti vitria dina,
Posto que o frio Fsis ou Siene,
Que pera nenhum cabo a sombra inclina,
O Bootes gelado e a Linha ardente
Temessem o teu nome geralmente.

72
«Posto que a rica Arbia e que os feroces
Henocos e Colcos, cuja fama
O Vu dourado estende, e os Capadoces
E Judeia, que um Deus adora e ama,
E que os moles Sofenos e os atroces
Cilcios, com a Armnia, que derrama
As guas dos dous Rios cuja fonte
Est noutro mais alto e santo Monte,

73
«E, posto, enfim, que desde o Mar de Atlante
At o Ctico Tauro, monte erguido,
J vencedor te vissem, no te espante,
Se o campo Emtio s te viu vencido,
Porque Afonso vers, soberbo e ovante,
Tudo render e ser despois rendido.
Assi o quis o Conselho alto, celeste,
Que vena o sogro a ti e o genro a este.

74
«Tornado o Rei sublime, finalmente,
Do divino Juzo castigado,
Despois que em Santarm soberbamente,
Em vo, dos Sarracenos foi cercado,
E despois que do mrtire Vicente
O santssimo corpo venerado
Do Sacro Promontrio conhecido
cidade Ulisseia foi trazido;

75
«Por que levasse avante seu desejo,
Ao forte filho manda, o lasso velho,
Que s terras se passasse de Alentejo,
Com gente e co belgero aparelho.
Sancho, d’ esforo e de nimo sobejo,
Avante passa e faz correr vermelho
O rio que Sevilha vai regando,
Co sangue Mauro, brbaro e nefando.

76
«E, com esta vitria cobioso,
J no descansa o moo, at que veja
Outro estrago como este, temeroso,
No Brbaro que tem cercado Beja.
No tarda muito o Prncipe ditoso
Sem ver o fim daquilo que deseja.
Assi estragado, o Mouro na vingana
De tantas perdas pe sua esperana.

77
«J se ajuntam do monte a quem Medusa
O corpo fez perder que teve o Cu;
J vm do promontrio de Ampelusa
E do Tinge, que assento foi de Anteu.
O morador de Abila no se escusa,
Que tambm com suas armas se moveu,
Ao som da Mauritana e ronca tuba,
Todo o Reino que foi do nobre Juba.

78
«Entrava, com toda esta companhia,
O Miralmomini em Portugal;
Treze Reis Mouros leva de valia,
Entre os quais tem o ceptro Imperial.
E assi, fazendo quanto mal podia,
O que em partes podia fazer mal,
Dom Sancho vai cercar em Santarm;
Porm no lhe sucede muito bem.

79
«D-lhe combates speros, fazendo
Ardis de guerra mil, o Mouro iroso;
No lhe aproveita j trabuco horrendo,
Mina secreta, arete foroso,
Porque o filho de Afonso, no perdendo
Nada do esforo e acordo generoso,
Tudo prov com nimo e prudncia,
Que em toda a parte h esforo e resistncia.

80
«Mas o velho, a quem tinham j obrigado
Os trabalhosos anos ao sossego,
Estando na cidade cujo prado
Enverdecem as guas do Mondego,
Sabendo como o filho est cercado,
Em Santarm, do Mauro povo cego,
Se parte diligente da cidade,
Que no perde a presteza co a idade.

81
«E, co a famosa gente, guerra usada,
Vai socorrer o filho; e assi ajuntados,
A Portuguesa fria costumada
Em breve os Mouros tem desbaratados.
A campina, que toda est coalhada
De marlotas, capuzes variados,
De cavalos, jaezes, presa rica,
De seus senhores mortos cheia fica.

82
«Logo todo o restante se partiu
De Lusitnia, postos em fugida;
O Miralmomini s no fugiu,
Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.
A Quem lhe esta vitria permitiu
Do louvores e graas sem medida;
Que, em casos to estranhos, claramente
Mais peleja o favor de Deus que a gente.

83
«De tamanhas vitrias triunfava
O velho Afonso, Prncipe subido,
Quando quem tudo, enfim, vencendo andava,
Da larga e muita idade foi vencido.
A plida doena lhe tocava,
Com fria mo, o corpo enfraquecido;
E pagaram seus anos, deste jeito,
A triste Libitina seu direito.

84
«Os altos promontrios o choraram,
E dos rios as guas saudosas
Os semeados campos alagaram,
Com lgrimas correndo piadosas,
Mas tanto pelo mundo se alargaram,
Com fama, suas obras valerosas,
Que sempre no seu Reino chamaro:
«Afonso! Afonso!» os ecos; mas em vo.

85
«Sancho, forte mancebo, que ficara
Imitando seu pai na valentia,
E que em sua vida j se exprimentara,
Quando o Btis de sangue se tingia
E o brbaro poder desbaratara
Do Ismaelita Rei de Andaluzia,
E mais quando os que Beja em vo cercaram,
Os golpes de seu brao em si provaram;

86
«Despois que foi por Rei alevantado,
Havendo poucos anos que reinava,
A cidade de Silves tem cercado,
Cujos campos o Brbaro lavrava.
Foi das valentes gentes ajudado
Da Germnica armada que passava,
De armas fortes e gente apercebida,
A recobrar Judeia j perdida.

87
«Passavam a ajudar na santa empresa
O roxo Federico, que moveu
O poderoso exrcito, em defesa
Da cidade onde Cristo padeceu,
Quando Guido, co a gente em sede acesa,
Ao grande Saladino se rendeu,
No lugar onde aos Mouros sobejavam
As guas que os de Guido desejavam.

88
«Mas a fermosa armada, que viera
Por contraste de vento quela parte,
Sancho quis ajudar na guerra fera,
J que em servio vai do santo Marte.
Assi como a seu pai acontecera,
Quando tomou Lisboa, da mesma arte
Do Germano ajudado, Silves toma
E o bravo morador destrui e doma.

89
«E se tantos trofus do Maometa
Alevantando vai, tambm do forte
Leons no consente estar quieta
A terra, usada aos casos de Mavorte,
At que na cerviz seu jugo meta
Da soberba Tu, que a mesma sorte
Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,
Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.

90
«Mas, entre tantas palmas, salteado
Da temerosa morte, fica herdeiro
Um filho seu, de todos estimado,
Que foi segundo Afonso e Rei terceiro.
No tempo deste, aos Mouros foi tomado
Alcare do Sal, por derradeiro;
Porque dantes os Mouros o tomaram,
Mas agora estrudos o pagaram.

91
«Morto despois Afonso, lhe sucede
Sancho segundo, manso e descuidado;
Que tanto em seus descuidos se desmede
Que de outrem quem mandava era mandado.
De governar o Reino, que outro pede,
Por causa dos privados foi privado,
Porque, como por eles se regia,
Em todos os seus vcios consentia.

92
«No era Sancho, no, to desonesto
Como Nero, que um moo recebia
Por mulher e, despois, horrendo incesto
Com a me Agripina cometia;
Nem to cruel s gentes e molesto,
Que a cidade queimasse onde vivia;
Nem to mau como foi Heliogabalo,
Nem como o mole Rei Sardanapalo;

93
«Nem era o povo seu tiranizado,
Como Siclia foi de seus tiranos;
Nem tinha, como Flaris, achado
Gnero de tormentos inumanos;
Mas o Reino, de altivo e costumado
A senhores em tudo soberanos,
A Rei no obedece nem consente
Que no for mais que todos excelente.

94
«Por esta causa, o Reino governou
O Conde Bolonhs, despois alado
Por Rei, quando da vida se apartou
Seu irmo Sancho, sempre ao cio dado.
Este, que Afonso o Bravo se chamou,
Despois de ter o Reino segurado,
Em dilat-lo cuida, que em terreno
No cabe o altivo peito, to pequeno.

95
«Da terra dos Algarves, que lhe fora
Em casamento dada, grande parte
Recupera co brao, e deita fora
O Mouro, mal querido j de Marte.
Este de todo fez livre e senhora
Lusitnia, com fora e blica arte,
E acabou de oprimir a nao forte
Na terra que aos de Luso coube em sorte.

96
«Eis despois vem Dinis, que bem parece
Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
Com quem a fama grande se escurece
Da liberalidade Alexandrina.
Com este o Reino prspero florece
(Alcanada j a paz urea, divina)
Em constituies, leis e costumes,
Na terra j tranquila claros lumes.

97
«Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso ofcio de Minerva;
E de Helicona as Musas fez passar-se
A pisar de Mondego a frtil erva.
Quanto pode de Atenas desejar-se
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
Aqui as capelas d tecidas de ouro,
Do bcaro e do sempre verde louro.

98
«Nobres vilas de novo edificou,
Fortalezas, castelos mui seguros,
E quase o Reino todo reformou
Com edifcios grandes e altos muros;
Mas, despois que a dura tropos cortou
O fio de seus dias j maduros,
Ficou-lhe o filho, pouco obediente,
Quarto Afonso, mas forte e excelente.

99
«Este sempre as soberbas Castelhanas
Co peito desprezou firme e sereno
Porque no das foras Lusitanas
Temer poder maior, por mais pequeno;
Mas porm, quando as gentes Mauritanas,
A possuir o Hesprico terreno,
Entraram pelas terras de Castela,
Foi o soberbo Afonso a socorr-la.

100
«Nunca com Semirmis gente tanta
Veio os campos Hidspicos enchendo,
Nem tila, que Itlia toda espanta,
Chamando-se de Deus aoute horrendo,
Gtica gente trouxe tanta, quanta
Do Sarraceno brbaro, estupendo,
Co poder excessivo de Granada,
Foi nos campos Tarts[s]ios ajuntada.

101
«E, vendo o Rei sublime Castelhano
A fora inexpugnbil, grande e forte,
Temendo mais o fim do povo Hispano
(J perdido ũa vez), que a prpria morte,
Pedindo ajuda ao forte Lusitano
Lhe mandava a carssima consorte,
Mulher de quem a manda, e filha amada
Daquele a cujo Reino foi mandada.

102
«Entrava a fermosssima Maria
Polos paternais paos sublimados,
Lindo o gesto, mas fora de alegria,
E seus olhos em lgrimas banhados.
Os cabelos anglicos trazia
Pelos ebrneos ombros espalhados.
Diante do pai ledo, que a agasalha,
Estas palavras tais, chorando, espalha:

103
— «Quantos povos a terra produziu
De frica toda, gente fera e estranha,
O gro Rei de Marrocos conduziu
Pera vir possuir a nobre Espanha.
Poder tamanho junto no se viu,
Despois que o salso mar a terra banha;
Trazem ferocidade e furor tanto,
Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.

104
«Aquele que me deste por marido,
Por defender sua terra amedrontada,
Co pequeno poder, oferecido
Ao duro golpe est da Maura espada,
E, se no for contigo socorrido,
Ver-me-s dele e do Reino ser privada;
Viva e triste e posta em vida escura,
Sem marido, sem Reino e sem ventura.

105
«Portanto, Rei, de quem com puro medo
O corrente Muluca se congela,
Rompe toda a tardana, acude cedo
A miseranda gente de Castela.
Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
De pai o verdadeiro amor assela,
Acude e corre, pai, que, se no corres,
Pode ser que no aches quem socorres.»

106
«No de outra sorte a tmida Maria
Falando est, que a triste Vnus, quando
A Jpiter, seu pai, favor pedia
Pera Eneias, seu filho, navegando;
Que a tanta piedade o comovia,
Que, cado das mos o raio infando,
Tudo o clemente Padre lhe concede,
Pesando-lhe do pouco que lhe pede.

107
«Mas j cos esquadres da gente armada
Os Eborenses campos vo coalhados;
Lustra co Sol o arns, a lana, a espada;
Vo rinchando os cavalos jaezados;
A canora trombeta embandeirada
Os coraes, paz acostumados,
Vai s fulgentes armas incitando,
Polas concavidades retumbando.

108
«Entre todos no meio se sublima,
Das insgnias Reais acompanhado,
O valeroso Afonso, que por cima
De todos leva o colo alevantado,
E somente co gesto esfora e anima
A qualquer corao amedrontado.
Assi entra nas terras de Castela
Com a filha gentil, Rainha dela.

109
«Juntos os dous Afonsos, finalmente
Nos campos de Tarifa esto defronte
Da grande multido da cega gente,
Pera quem so pequenos campo e monte.
No h peito to alto e to potente
Que de desconfiana no se afronte,
Enquanto no conhea e claro veja
Que, co brao dos seus, Cristo peleja.

110
«Esto de Agar os netos qusi rindo
Do poder dos Cristos, fraco e pequeno,
As terras como suas repartindo,
Antemo, entre o exrcito Agareno,
Que, com ttulo falso, possuindo
Est o famoso nome Sarraceno;
Assi tambm, com falsa conta e nua,
A nobre terra alheia chamam sua.

111
«Qual o membrudo e brbaro Gigante,
Do Rei Saul, com causa, to temido,
Vendo o Pastor inerme estar diante,
S de pedras e esforo apercebido,
Com palavras soberbas, o arrogante
Despreza o fraco moo mal vestido,
Que, rodeando a funda, o desengana
(Quanto mais pode a F que a fora humana!)

112
«Destarte o Mouro prfido despreza
O poder dos Cristos, e no entende
Que est ajudado da alta Fortaleza
A quem o Inferno horrfico se rende.
Co ela o Castelhano, e com destreza,
De Marrocos o Rei comete e ofende;
O Portugus, que tudo estima em nada,
Se faz temer ao Reino de Granada.

113
«Eis as lanas e espadas retiniam
Por cima dos arneses — bravo estrago! —;
Chamam, segundo as Leis que ali seguiam,
Uns Mafamede e os outros Santiago.
Os feridos com grita o cu feriam,
Fazendo de seu sangue bruto lago,
Onde outros, meios mortos, se afogavam,
Quando do ferro as vidas escapavam.

114
«Com esforo tamanho estrui e mata
O Luso ao Granadil, que, em pouco espao,
Totalmente o poder lhe desbarata,
Sem lhe valer defesa ou peito de ao.
De alcanar tal vitria to barata
Inda no bem contente o forte brao,
Vai ajudar ao bravo Castelhano,
Que pelejando est co Mauritano.

115
«J se ia o Sol ardente recolhendo
Pera a casa de Ttis, e inclinado
Pera o Ponente, o Vspero trazendo,
Estava o claro dia memorado,
Quando o poder do Mouro, grande e horrendo,
Em pelos fortes Reis desbaratado,
Com tanta mortindade, que a memria
Nunca no mundo viu to gro vitria.

116
«No matou a quarta parte o forte Mrio
Dos que morreram neste vencimento,
Quando as guas co sangue do adversrio
Fez beber ao exrcito sedento;
Nem o Peno, asperssimo contrrio
Do Romano poder, de nascimento,
Quando tantos matou da ilustre Roma,
Que alqueires trs de anis dos mortos toma.

117
«E se tu tantas almas s pudeste
Mandar ao Reino escuro de Cocito,
Quando a santa Cidade desfizeste
Do povo pertinaz no antigo rito,
Permisso e vingana foi celeste,
E no fora de brao, nobre Tito;
Que assi dos Vates foi profetizado,
E despois por JESU certificado.

118
«Passada esta to prspera vitria,
Tornado Afonso Lusitana Terra,
A se lograr da paz com tanta glria
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste e dino da memria,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da msera e mesquinha
Que despois de ser morta foi Rainha.

119
«Tu, s tu, puro amor, com fora crua,
Que os coraes humanos tanto obriga,
Deste causa molesta morte sua,
Como se fora prfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lgrimas tristes se mitiga,
porque queres, spero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

120
«Estavas, linda Ins, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna no deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e s ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

121
«Do teu Prncipe ali te respondiam
As lembranas que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memrias de alegria.

122
«De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tlamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se no queria,

123
«Tirar Ins ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co sangue s da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra ũa fraca dama delicada?

124
«Traziam-a os horrficos algozes
Ante o Rei, j movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razes, morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Sadas s da mgoa e saudade
Do seu Prncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a prpria morte a magoava,

125
«Pera o cu cristalino alevantando,
Com lgrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos);
E despois, nos mininos atentando,
Que to queridos tinha e to mimosos,
Cuja orfindade como me temia,
Pera o av cruel assi dizia:

126
«Se j nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas areas tm o intento,
Com pequenas crianas viu a gente
Terem to piadoso sentimento
Como co a me de Nino j mostraram,
E cos irmos que Roma edificaram:

127
« tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano matar ũa donzela,
Fraca e sem fora, s por ter sujeito
O corao a quem soube venc-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o no tens morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te no move a culpa que no tinha.

128
«E se, vencendo a Maura resistncia,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe tambm dar vida, com clemncia,
A quem pera perd-la no fez erro.
Mas, se to assi merece esta inocncia,
Pe-me em perptuo e msero desterro,
Na Ctia fria ou l na Lbia ardente,
Onde em lgrimas viva eternamente.

129
«Pe-me onde se use toda a feridade,
Entre lees e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos no achei.
Ali, co amor intrnseco e vontade
Naquele por quem mouro, criarei
Estas relquias suas que aqui viste,
Que refrigrio sejam da me triste.»

130
«Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe no perdoam.
Arrancam das espadas de ao fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra ũa dama, peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavaleiros?

131
«Qual contra a linda moa Policena,
Consolao extrema da me velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos, com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha),
Na msera me postos, que endoudece,
Ao duro sacrifcio se oferece:

132
«Tais contra Ins os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniavam, frvidos e irosos,
No futuro castigo no cuidosos.

133
«Bem puderas, Sol, da vista destes,
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mo de Atreu comia!
Vs, cncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espao repetistes.

134
«Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cndida e bela,
Sendo das mos lacivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal est, morta, a plida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.

135
«As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memria eterna, em fonte pura
As lgrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Ins, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lgrimas so a gua e o nome Amores.

136
«No correu muito tempo que a vingana
No visse Pedro das mortais feridas,
Que, em tomando do Reino a governana,
A tomou dos fugidos homicidas.
Do outro Pedro crussimo os alcana,
Que ambos, imigos das humanas vidas,
O concerto fizeram, duro e injusto,
Que com Lpido e Antnio fez Augusto.

137
«Este castigador foi rigoroso
De latrocnios, mortes e adultrios;
Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,
Eram os seus mais certos refrigrios.
As cidades guardando, justioso,
De todos os soberbos vituprios,
Mais ladres, castigando, morte deu,
Que o vagabundo Alcides ou Teseu.

138
«Do justo e duro Pedro nasce o brando
(Vede da natureza o desconcerto!),
Remisso e sem cuidado algum, Fernando,
Que todo o Reino ps em muito aperto;
Que, vindo o Castelhano devastando
As terras sem defesa, esteve perto
De destruir-se o Reino totalmente,
Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.

139
«Ou foi castigo claro do pecado
De tirar Lianor a seu marido
E casar-se co ela, de enlevado
Num falso parecer mal entendido;
Ou foi que o corao, sujeito e dado
Ao vcio vil, de quem se viu rendido,
Mole se fez e fraco; e bem parece
Que um baxo amor os fortes enfraquece.

140
«Do pecado tiveram sempre a pena
Muitos, que Deus o quis e permitiu:
Os que foram roubar a bela Helena,
E com pio tambm Tarquino o viu.
Pois por quem David Santo se condena?
Ou quem o tribo ilustre destruiu
De Benjamim? Bem claro no-lo insina
Por Sarra Fara, Siqum por Dina.

141
«E pois, se os peitos fortes enfraquece
Um inconcesso amor desatinado,
Bem no filho de Almena se parece,
Quando em nfale andava transformado.
De Marco Antnio a fama se escurece
Com ser tanto a Clepatra afeioado.
Tu tambm, Peno prspero, o sentiste
Despois que ũa moa vil na Aplia viste.

142
«Mas quem pode livrar-se, porventura,
Dos laos que Amor arma brandamente
Entre as rosas e a neve humana pura,
O ouro e o alabastro transparente?
Quem, de ũa peregrina fermosura,
De um vulto de Medusa propriamente,
Que o corao converte, que tem preso,
Em pedra, no, mas em desejo aceso?

143
«Quem viu um olhar seguro, um gesto brando,
Ũa suave e anglica excelncia,
Que em si est sempre as almas transformando,
Que tivesse contra ela resistncia?
Desculpado, por certo, est Fernando,
Pera quem tem de amor experincia;
Mas antes, tendo livre a fantasia,
Por muito mais culpado o julgaria.

 

Luís Vaz de Camões
OS LUSíADAS
Canto III
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