Estes cumprem o rito antigo mantendo 
a chama da morte acesa na obscura água da vida 
e engrossam o rio dos mortos 
como pura memória sem nome. 

Nós rebelámo-nos, levantámos as mãos ao céu, 
e depois fechámo-las para deter 
o rio da mudança fluindo por entre os dedos, 
porque éramos os menos fortes e os menos densos. 

Frágeis mãos dispersaram o que nos pertencia 
e quando regressámos tinham partido todos. 
Agora, diante de nós mesmos para sempre, 
até a nossa miséria nos parece alheia. 


In POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2001
Manuel António Pina
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