Mãos brancas (meras mãos sem corpo e sem braços)
Acariciando um negro veludo...
Os olhos do guerreiro vistos por cima do escudo

(Cartas de luto sobre regaços)
E nunca desfraldado o estandarte
De modo a ver-se que cores e imagens tem...
Mãos sem lágrimas, mãos que nunca seriam de mãe...
Ah, não ser eu toda a gente e toda a parte!’

Dói púrpuras o silêncio, e que lírios a hora!
E nos tabernáculos das ocasiões um rito de timbres cobra
Os vitrais das passadas desilusões...

Cessou no Oposto o ruído de vagas batalhas
Ficou todo o espaço sendo, com túmulos (brancos) a Hora,
Um suspirar de guizos, com fimbrias de falhas...

Abrem-se de par em par impossíveis portões
E desabrocha a ira nos olhos de Artur
Dos vultos, na sombra, de leões...

Mas os dias acontecem oráculos neutros
E não há rituais, Princesa, senão de imperfeições...

22 - 3 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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