Reli, como quem lê uma obra alheia,
O que escrevi nessa distância minha
De jovem, a de que a alma ficou cheia.
Porque foi o melhor que a alma tinha;

Reli, e desconheço quem foi o poeta
Nessa ocasião em que esplendi absorto,
E o que sou hoje é uma sombra preta
Sobre o chão limpo desse poeta morto.

Reli; nem saberei que é que fui
Quando fui o poeta que não sou…
Não sei que rio por minha alma flui.
Sei que trouxe meu ser e mo levou.

23 - 6 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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