Tudo quanto sonhei, ou quis, amando,
O abismo o inclui, e forma um vulto brando
Cuja aérea presença faz meus sonhos,
Mas meus sonhos como eu vivem passando.

Nove vezes a Estige a si envolve,
Mas tudo quanto é vida mais que nove.
Tudo é problemas, se se pensa ou sente,
E nada se consegue ou se resolve.

No fim quente do estio o outono quente
Principia e uma dúvida se sente
Que passa do exterior à alma e à vida,
Mas até a dúvida em si mesma mente.

Sábio é o que deixa que o Destino o faça.
Se tem que ser meu ser glória ou desgraça,
Sê-lo-á sem que o queira ou o consiga,
E o que for é, se o fôr, e, sendo, passa.

Glória ou vergonha nada pesa. Bate
Só no sozinho coração o rebate
Do que nos acontece ou não sucede.

13 - 9 - 1929

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar