Tudo dorme. Pela erva
Um vento ouvido passa.
E ela cicia, serva
Do silêncio que a abraça.

Paira um luar de sobre
Juncos em lagos vagos,
Mas nenhuma grinalda cobre
Este lugar sem lagos.

Esta paisagem vive
Só de antes eu a sonhar.
Não sei se ali estive
Lembro-me de a lembrar.

E esta impalpável hora
Se infiltra no meu ser,
Como uma voz que chora
Nem lembrar nem esquecer.

21 - 3 - 1927

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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