Ah, a antiga canção,
Amor, renova agora...
Na noite, ao luar, na solidão,
Mais do que durar o teu canto chora.

Chora por mim, não sei que dor
Alheia e minha, e que eu tenho e esqueço.
Só por tu assim cantares te chamo amor,
Nunca te vi; não te conheço.

És só uma voz, casual, talvez
Que apenas canta enquanto és nada.
Voz nada já na viuvez
De teu ser nulo, donde é alada.
Palavras dubitadas: Efria.

Não haverá em nós
Uma dor que não conhecemos
Que, quando estamos sós,
Pára por sobre os remos.

E a viagem da vida corre sobre o sono
Do remador alheio...
Ah, a antiga canção, e o abandono
Que, de ouvi-la em mim leio.

Cantas; não sei quem és, nem do canto
Sei mais do que o meu coração.
Quanto tu choras passa no quebranto
Da noite, os luares da solidão

E à janela da casa alta do monte
Uma luz aparece
(Isto é em minha alma, sombra e horizonte —
E a vida esquece.)

 

 

10 - 7 - 1920

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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