Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas, 
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas). 

Amanhã elas, postas em verso, serão 
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!) 
Triunfo, meta, início, clarão 
Que talvez não acabe. 

E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado 
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro, 
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado 
Por quem entra primeiro. 

Que o que vale são as ideias que tenho, enfim, 
O resto, o que aqui está sentado, sou eu, 
Vestido, visual, regular, sempre em mim, 
Sob o azul do céu. 

Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso 
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo 
Senso essencial, mas certeiro e conciso Da vida e do mundo! 

Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias, 
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo 
Que este carro vai com os bancos cheios 
Para onde eu sigo. 

E o ponto de absurdo de tudo isto qual é? 
Onde é que está aqui o erro que sinto? 
A minha razão enternecida aqui perde pé 
E pensando minto, 

Mas a que verdade minto, que ponte, 
Há entre o que é falso aqui e o que é certo? 
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte, 
Se o que está a descoberto 

Agora no meu meditar é uma treva e um abismo 
Que hei-de fazer da minha consciência dividida? 
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo? 
De que lado é que é a vida? 

8 - 10 - 1919

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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