Há um frio e um vácuo no ar.
‘Stá sobre tudo a pairar,
Cinzento-preto, o luar.

Luar triste de antemanhã
De outro dia e sua vã
‘Sperança e inútil afã.

É como a morte de alguém
Que era tudo que a alma tem
E que não era niguém.

Absurdo erro disperso
No ‘spaço, água onde é imerso
O cadáver do universo.

É como o meu coração
Nulo e pleno, vasto e vão,
Na antemanhã da visão.


23-2-1932 (5 a.m.)

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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