Sem dor que seja dolorosa, ou medo
Que seja mais do que um receio,
Dói no meu coração, como em segredo,
Indefinido anseio.
 
Humilha como se eu fora humilhado,
Pesa, seja o que for,
Nem, como a grande dor, contém o agrado
De ser a grande dor.

É uma cousa mesquinha e insubsistente,
Constituída por desolações.
De quê? Não fora desoladamente
Tantas indecisões

Se eu soubera que fim ou que miragem,
Que entrevisível sonho
Põe a dor de eu não tê-lo na passagem
Deste amplo ócio tristonho.
 

28 - 7 - 1923

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar