«Apaga a luz. Guarda-me os óculos. Obrigado. 
Como se chamava o homem da lavandaria, 
o que trazia sempre a roupa trocada 
e um dia trouxe uma camisa dele próprio 
e a deixou ficar lá em casa mais de um mês 
à espera que a mandássemos outra vez para lavar, 
a ver se a recuperava? 
(Ao fim de cinco semanas, 
a mulher perdeu a paciência 
e veio por ele e pela camisa, que ainda 
estava dentro do saco de plástico 
no guarda-fatos; era igual à minha, azul, 
talvez de um azul menos óbvio mas, de qualquer modo, azul).
Lembrei-me dele porque 
quando morreu tu disseste: 
«Coitado, pode ser que acerte 
com o caminho do céu!» 
Tinha uns óculos de lentes grossíssimas, 
e não me admiraria que a sua morte 
tivesse sido, mais que morte, algum erro de paralaxe. 
Agora, sem óculos, como saberá ele 
se está vivo ou se está morto?» 
 
 
Sexta-feira, 27 de Março 

In POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2001
Manuel António Pina
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