Corre-me nas veias um fogo de abandono...
Tenho uma auréola de névoa em meu olhar...
Embala o meu silêncio oco de sono
Uma sombra consciente de (o) embalar...
      Dobre a finados sem sinos
      Nos meus ócios peregrinos

Roçam mãos no meu corpo onde eu as não vejo
Passam asas no soslaio da minha atenção,
Um invisível bafo falha um beijo
Perto da minha face atenta em vão!!!
      Lá vai lento e lento o enterro
      Do que eu tinha de áureo no erro

Só me resta o fitar-me no espelho da verdade
E acompanhar-me com a ilusão de que vivi
Mas uma raiva súbita me invade:
Não saber eu quem sou, e o que é aqui!
      Nestes pós de fria terra
      A minha sombra me enterra.

23 - 3 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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