Deixei cair o livro onde não li
Mais que uma só palavra lembradora...
Magia! E outra paisagem e outra hora
Ante meus olhos irreais revi.
         
E eu, que choro mais que o que perdi,
E cuja vaga alma, □
O tempo abstracto, não o passado, chora
Mas no passado o chora, que é o que vi,
 
De novo torno a ser quem nunca fui,
E sob meus olhos imprecisos flui
O rio que não foi da minha infância,

E a minha infância reconhece o rio,
E a saudade de mim e da minha ânsia
Segue solene as ondas e o desvio...


□ espaço deixado em branco pelo autor

21 - 5 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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